quarta-feira, 28 de outubro de 2009

ELEIÇÕES IAB-RJ 2009 - Chapa arquitetura: cidade metrópole

Eu voto!


Conforme divulgado pelo site do IAB-RJ, e pelo blog de Ana Luiza Nobre, Posto 12, está formada, e já reconhecida como única, a chapa arquitetura:cidade metrópole, composta por arquitetos (alguns dos quais foram meus professores, outros foram parceiros de trabalho) que estão engajados na luta verdadeira em favor da participação mais democrática dos arquitetos e da sociedade civil na construção da cidade, e como divulgado na plataforma de governo, "em defesa de um espaço arquitetônico, urbano e metropolitano que seja instrumento e construtor de uma sociedade democrática, justa, solidária, menos desigual, mais feliz."

Fico já na esperança de que consigamos recuperar o tempo perdido, realizar (muito) mais concursos públicos, e que nós, jovens arquitetos, tenhamos mais chances de produzir arquitetura de qualidade para a população, para a cidade.

A plataforma de governo e composição completa da chapa, estão disponíveis em pdf, nos links abaixo:


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terça-feira, 20 de outubro de 2009

RUBENS GERCHMAN, Interview, 1994

"Aí, como eu era o único em quem confiava, fiz uma edição dos seus parangolés. Levei-o no melhor impressor, o Claus Oldenburg, que atendia o Roy Lichtenstein, para fazer a gravura do Hélio. Era uma foto que ele me deu, com o Luiz Fernando vestindo a capa no cais da rua 42. Mas ele não gostou do resultado, achou uma merda. Por causa de um preto, cara, refizemos a impressão cinco vezes. Era um off-black complicadíssimo, com quatro impressões de preto, mais um cinza, um prata, vários grises no fundo, mas no final ele ficou satisfeitíssimo. Aí ele assinou aquilo tudo, eram umas 100 gravuras, tirou uma prova de artista para ele e me deu uma, que está emoldurada aqui em casa. Até ai, tudo bem...

(...) Guardei o trabalho e trouxe-o comigo para o Rio. Combinei com o Hélio: quando você puder ou quiser, vamos fazer um lançamento no Brasil. Passaram-se uns oito anos até que um dia o Hélio me ligou, nervoso, gritando: "Gerchman, cadê aquela edição? Você está me roubando!" Ele estava puto, era dado a iras assim, mas consegui dizer: "Porra, Hélio, tá tudo aqui guardado, vou levar agora aí na sua casa". Quando ele viu o pacote fechado, ainda com o carimbo da alfândega, intacto, começou a chorar. (...)

Um artista abandonado pelo mundo das artes plásticas, mas que depois de morto foi endeusado. Em vida, ele nunca vendeu nada, a não ser uns meta-esquemas que o Vergara vendeu para o Gilberto Chateaubriand. Depois fizeram esta Fundação Hélio Oiticica e aí sumiram com algumas coisas. Como aquela tiragem de 100 gravuras que fizemos em Nova York - edição lindíssima, investi uns 5 mil dólares, hoje seriam uns 20, delas nunca recebi um tostão -, andou sendo vendida lá fora por um alto preço. Esta Fundação H.O., vendeu muita coisa, levantei a lebre, tentei publicar isso no 'Globo', contra esse cara que monta todas as exposições, o Luciano Figueiredo, mas fui sabotado. Estão vivendo em cima do cadáver dele. São os vampiros do Hélio Oiticica. Fizeram exposição dele, em Paris, no Petit Palais, no Grand Palais, no Jeu de Paume, tembém em Sevilha, hoje, depois de morto, virou um grande nome mundial". Fonte do próprio bolso


Não adianta chorar sobre o leite derramado. Parte dos documentos e obras de Hélio, como o documento "Os Bólides e o sistema espacial", estão digitalizados e já disponíveis no portal
Itaú Cultural/Programa Hélio Oiticica.

Outros textos mais improváveis como esse, digamos, caloroso depoimento de Rubens Gerchman à revista Interview, acima transcrito, também podem ser encontrados pela rede. Sua obra queimou, mas permanece viva na memória dos verdadeiros admiradores da arte.

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domingo, 18 de outubro de 2009

NEILL BLOMKAMP - DISTRICT 9: You are not welcome here, 2009



com pipoca e refrigerante!


Para aqueles que não tem preconceito com o cinema hollywoodiano, e estão com um tempinho sobrando (coisa que eu não estou) aí vai uma dica:

Distrito 9 me surpreendeu. Tudo que parecia ser mais um filme de ficção que não iria despertar nenhum pensamento posterior, revela-se um filme e tanto, que mesmo com atores totalmente desconhecidos interpretando personagens demasiado banais, como Sharlto Copley na pele do burocrata caxias Wikus Van De Merwe, que, diga-se de passagem é fantástico, consegue promover uma
divertida sátira à condição atual da raça humana.

A hipotética Johanesburgo está também muito bem no filme. Guetos, vazios urbanos, subúrbios, periferias, junk-spaces, terrain vagues, e todo o submundo e decadência na cidade contemporânea também estão muito bem representados.
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segunda-feira, 12 de outubro de 2009

LINA POR ESCRITO - Org. Silvana Rubino e Marina Grinover, Cosac Naify, 2009


aulas

"Nesse ponto temos que definir a personalidade do arquiteto: o arquiteto é um operário qualificado que conhece o seu ofício não só prática como teórica e historicamente, e tem precisa consciência que a sua himanidade não é fim em si mesma, mas se compõe, além da própria individualidade, dos outros homens e da natureza." Lina Bo Bardi, 1958

Foi lançado mês passado pela editora Cosac Naify uma coletânea de textos da arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi, falecida em 1991. Os textos escolhidos - sempre bem acompanhados por fotos ou ilustrações, e organizados em ordem cronológica - nos ajudam a enxergar mais de perto, como Lina pensava, entender suas convicções, suas verdades e questionamentos. Um livro para arquitetos ou não.
Os primeiros textos, ainda na europa, Lina mostra na sua personalidade uma arquiteta jovem, uma pessoa politizada e apaixonada pela arquitetura nova que surgia, pela modernidade e pelos avanços tecnológicos de forma geral.

Após chegar no Brasil em 1946, seus textos escritos entre até os anos 60 mostram uma Lina inspirada, hipnotisada diante do cenário promissor da arquitetura brasileira. Os textos escolhidos mostram seus pensamentos focados na arquitetura moderna, na teoria da arquitetura, nos próprios grandes arquitetos brasileiros representantes do movimento moderno, e na industriaização e seu impacto no design.

"A idéia inicial de recuperação do dito cuonjunto foi a de "arquitetura pobre", insto é, não no sentido de indigência mas no sentido de artesanal, que exprime comunicação e dignidade máximas através dos menores e humildes meios" Lina Bo Bardi, Sobre o projeto do SESC Pompéia, 1986

Mais pra frente, após mais alguns anos de Brasil, os textos já revelam outra Lina: agora mais centrada em questões éticas relativas o ensino da arquitetura, questões sociais como a problemática da falta habitação popular, ao design, e a arte popular, sempre se empenhando na pesquisa pela essencia da arte popular, pelos costumes e signos que seriam para ela os verdadeiros representantes da cultura brasileira.

Abrasileirada, Lina emprega seus conhecimentos na prática da arquitetura, revelando através de projetos, como o SESC pompéia, o MAM Salvador, o Teatro Gregório de Matos, a reforma da Casa do Benin que a a arquitetura moderna brasileira, poderia (e deveria) ser mais brasileira do que era. Polêmica como sempre, se dizia stalinistra, antifeminista, e em 90 chegou afirmar que o design brasileiro nunca existiu e que design estava acabando. Dizia o que queria, falava o que lhe viesse na cabeça.

Fica evidente que Lina era uma mulher que tinha pensamentos anos-luz à frente de outras mulheres e homens de seu tempo, ou ainda dos tempos atuais. Era preocupada com o progresso coletivo, e não o individual.

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quarta-feira, 7 de outubro de 2009

FLÁVIO FERREIRA - Como resolver o trânsito do Rio de Janeiro em seis dias, 2009



"que centro?"

Passo adiante a indicação do arquiteto Manuel Fiaschi, que me mandou um interessante artigo do arquiteto carioca Flávio Ferreira, que mostra claramente que o problema de trânsito no Rio, asim como em outras metrópoles tem solução. E não é das mais complicadas. Nem das mais caras.

É uma solução que considero merecer ser testada, afinal, teoria e prática não podem andar separadas.

O artigo foi publicado pelo site Opinião e Notícia, e encontra-se nesse link:

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quinta-feira, 1 de outubro de 2009

OCUPAÇÃO PAULO LEMINSKI - Itaú Cultural, São Pulo, 2009 / A nova ruína, 1997



anarquiteto

Primeiro, divulgando a exposição "Ocupação Paulo Leminski: Vinte anos em outras esferas", que reúne textos e fotos do poeta e fica aberta a visitação até 8 de novembro, no Itaú Cultural, em São Paulo (Av. Paulista, 149. Tel.: 0/xx/11 2168-1776).

Segundo, transcrevo abaixo a reflexão "A nova ruína", publicado originalmente em Anseios e Ensaios Criptícos, 1997, e recentemente pulicado na Revista Noz nº3, que saiu em março último. É um "texto-ninja" daqueles que nos fazem refletir por alguns dias, e que mostra um pouco da relação e o pensamento de Leminski com a cidade e sua arquitetura.
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A nova ruína
Paulo Leminski

Pareceu-me divertida a idéia de uma contra-engenharia, uma anti-arquitetura, onde se fosse da frente para trás, uma arquitetura, onde o andaime fosse o fim, e o resto, vão parnasianismo de consumo fácil, uma engenharia onde o objeto arquitetural já fosse direto para seu estado último.

Assim, o nome desta reflexão (odeio a palavra "crônica", com que alguns costumam designar meus "textos-ninja") era para ser "instruções para a construção de uma ruína".

A ruína é o maior abandonado do meio dos edifícios. Cabanas, palafitas, vilas, mansões, castelos, palácios, palacetes, apartamentos, kitchenettes, privadas de quintal, quartos de empregada, qualquer caverna habitável tem tido mais atenção que as ruínas.

E, no entanto, a ruína é o sentido de final de tudo, o significado dos quartos de empregada, das privadas de quintal, kitchenettes, apartamentos, palacetes, palácios, castelos, mansões, vilas, palafitas e cabanas.

Foi em Brasília que tive essa intuição.

A primeira vez que estive lá, fui ciceroneado pelo poeta Nicolas Behr, que me mostrou as belezas da arquitetura de Niemeyer, aqueles maravilhosos caixotes de cimento que o tempo, com sua habitual perícia e pontualidade, já está carcomendo e encardindo.

Mas de tudo o que vi lá o que mais me empressionou foi o primeiro andar de um edifício interrompido, um começo de prédio com a ferragem interna aparecendo, saindo de dentro do cimento armado, como as tripas de um aborto ou a primeira quadra de um soneto acabado.

-Uma ruína? Aqui? Neste monumento futurista?

Behr, que ama Brasília até a insentatez, me tirou do pasmo, explicando que realmente era um prédio interrompido, que assim foi deixado para dar o toque humano àquela paisagem sublunar de ficção científica.

Arrebatado pela musa, ali memso desovei no ato um poema de dezoito andares chamado "Claro Calar Sobre uma Cidade sem Ruínas".

Desde então a idéia da construção de ruínas me persegue como uma obsessão.

Dia desses, lembrei qua já tinha tido essa idéia, quando garoto. Mais. Que eu já tinha construído, uma vez, uma ruína. Era num mato perto da minha casa, atrás do internato dos irmãos maristas, onde eu estudava. No meio desse mato, havia um resto de um velho poço, coberto por uma torre de tijolos. Eu gostava de vir ali de tarde e ficar lendo Deuses, Túmulos e Sábios, o livro que mais me marcou na vida. E no meu desvario de arqueólogo aprendiz, eu gostava de fantasiar que aquele resto de poço pertencia a uma civilização desaparecida, e tentava imaginar como aquele povo vivia, que técnicas conhecia, que lingua falava.

Um dia, caí em mim e me rebelei contra aquela ficção. E resolvi construír eu mesmo a minha própria ruína. Fabriquei tijolos de barro no riacho mais próximo, que eu enchi de inscrições ilegíveis, mesmo para o linguista hábil que eu já era aos onze anos. Com os tijolos, fui construíndo dia após dia minha própria torre de Babel, fadada ao fracasso desde o nascimento. Abandonei a construção, quando ela já estava quase na minha altura, pois descobri que aquele povo sacrificava aos seus deuses sanguinários os arquitetos com mais de onze anos.

Durante anos, meu amor pelas ruínas me levou ao ódio pela arquitetura.

Eu queria ser um anarquiteto de desengenharias.

Ainda hoje, quando vejo um belo caixote de vidro e cimento na avenida paulista, ainda me consola pensar:

-Calma, calma, rapaz. Imagine que bela ruína isto vai dar um dia.

Mas eu não sou desses que acreditam em idéias individuais.

Tenho certeza que essa minha obsessão deve estar presente em muita gente, neste país onde os projetos já nascem mortos, que é um projeto irrealizado senão uma ruína novinha em folha?

Proponho, portanto, a introdução de uma nova cadeira em nossas escolas de Engenharia e Arquitetura, a de construção de ruínas.

Só construíndo suas próprias ruínas, lúcida e conscientemente, O Brasil poderá readquirir o prestígio arquitetônico que teve nos tempos de JK, aquela ruína do sonho de um país em desenvolvimento.

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segunda-feira, 28 de setembro de 2009

BERTOLT BRECHT - Sobre a maneira de construir obras duradouras, 19??

I

1

Quanto tempo
Duram as obras? Tanto quanto
Ainda não estão completadas.
Pois enquanto exigem trabalho
Não entram em decadência.

Convidando ao trabalho
Retribuindo a participação
Sua existência dura tanto quanto
Convidam e retribuem.

As úteis
Requerem gente
As artísticas
Têm lugar para a arte
As sábias
Requerem sabedoria
As duradouras
Estão sempre para ruir
As planejadas com grandeza
São incompletas.

Ainda imperfeitas
Como o muro que espera pela hera
(Ele foi incompleto
Há muito, antes de vir a hera, nu!)
Ainda pouco sólida
Como a máquina que é utilizada
Mas não satisfaz
Mas é promessa de uma melhor
Assim deve ser construída
A obra para durar
Como a máquina cheia de defeitos.

2

Assim também os jogos que inventamos
São incompletos, esperamos;
E os objetos que servem para jogar
O que são eles sem as marcas
De muitos dedos, aqueles lugares aparentemente danificados
Que produzem a nobreza da forma;
E também as palavras cujo sentido
Muitas vezes mudou
Com os que as usaram.

3

Nunca ir adiante sem primeiro
Voltar para checar a direção!
Os que perguntam são aqueles
A quem darás resposta, mas
Os que te ouvirão são aqueles
Que farão as perguntas.

Quem falará?
O que ainda não falou.
Quem entrará?
O que ainda não entrou.
Aqueles cuja posição parece insignificante
Quando se olha para eles

Estes são
Os poderosos de amanhã
Os que necessitam de ti, esses
Deverão ser o poder.

Quem dará duração às obras?
Os que viverão no tempo delas.
Quem escolher como construtores?
Os ainda não nascidos.

Não deves perguntar: como serão eles? Mas sim
Determinar.

II

Se deve ser dito algo que não será compreendido imediatamente
Se for dado um conselho cuja aplicação toma tempo
Se a fraqueza dos homens é temida
A perseverança dos inimigos, as catástrofes que tudo destroem
Então deve-se dar às obras uma longa duração.

III

O desejo de fazer obras de longa duração
Nem sempre deve ser saudado.
Quem se dirige aos não-nascidos
Muitas vezes nada faz pelo nascimento.
Não luta, e no entanto quer a vitória.
Não vê inimigo
A não ser o esquecimento.

Por que deveria todo vento durar eternamente?
Uma boa sentença pode ser lembrada
Enquanto retornar a ocasião
Em que foi boa.
Certas experiências, transmitidas em forma perfeita
Enriquecem a humanidade
Mas a riqueza pode se tornar demasiada
Não só as experiências
Também as lembranças envelhecem.

Por isso o desejo de emprestar duração às obras
Nem sempre deve ser saudado.

Tradução: Paulo Cesar Lima de Souza / Fonte: Revista ViverCidades

Mais poesias de Bertolt Brecht, aqui.

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quinta-feira, 24 de setembro de 2009

IGNASI DE SOLÁ-MORALES - A Forma da Ausência: Terrain Vague, 1996

"A experiência cultural da grande cidade está formada por um tecido humano em que a pervivência¹ do significado dos lugares através dos tempo é algo que não pode ser menosprezado.

Mais uma vez se faz recordar que a arquitetura do movimento moderno manteve uma posição limitada, fundamentalmente museística, frente aos testemunhos arquitetônicos da memória coletiva, ligada sobretudo ao produtivismo e a eficiência na qual deveria ser considerada a grande cidade.

Mera consideração das situações de fato, no caso de Mies, Hilberseimer ou Gropius; reutilização "museístico-turística" nos monumentos, no caso de Le Corbusier. Em todos eles a cidade é um artefato novo onde, no entorno da nova arquitetura eficaz e tecnificada, as relíquias dos chamados monumentos podem ficar descontextualizadas.

O que eram os monumentos para os mestres do movimento moderno é também algo que vale à pena recordar: restos fossilizados de peças isoladas cuja identificação se produzia a partir de critérios classificatórios que a história da arte havia herdado das ciências naturais.

A reação frente a tanta simplificação não tardou em manifestar-se. Por um lado, surgem reivindicações em favor de funções complexas - "o coração da cidade" dos últimos CIAM - que representariam, nas cidades históricas, um reconhecimento da função viva que o patrimônio urbano do passado continuava possuindo no presente. Por outra parte, surge a noção de "ambiente" como conceito que transcendia o valor isolado dos simples edifícios. Ambiente urbano, entorno urbano, umas noções procedentes da tradição paisagística que incorporavam à leitura dos espaços urbanos complexos um tipo de aproximação em que os valores formais não eram separáveis dos valores evocativos, significativos e históricos.

Junto a esta aproximação, mais paisagística que estritamente objetual, mais histórico-mnemônica que simplesmente abstrato-formal, se agrega hoje o desencanto pela própria cidade moderna, sua eficácia e capacidade de sedução. Um profundo pessimismo perpassa nossa cultura atual frente a experiência da grande cidade. Há uma ampla tradição crítica, frequentemente anti-urbana, em nada partícipe de uma leitura das grandes cidades atuais, de seus edifícios e de seus espaços como antecipação de uma vida melhor. O pessimismo urbano, desde Apengler a Munford, definiu atitudes que se caracterizam por buscar espaços alternativos na vida da grande cidade, espaços outros, fora ou dentro da cidade como reverso, verdadeiro e aceitável, da realidade cotidiana das metrópoles agressivas anônimas e feias.

A arte contemporânea, o cinema e a fotografia, e também a novela e a pintura, mantém em muitos casos, uma relação de amor e ódio com a cidade.

Fragmantação, ilegibilidade e agressividade são características da percepção difusa que este tipo de porta-voz privilegiado, que quase sempre costuma ser a produção artística, manifesta frente a cidade atual.

Nestas condições detectamos um interesse crescente, quase uma paixão, por aquelas situação da cidade as quais denominamos genericamente com a expressão francesa "terrain vague". "Terreno baldío" em espanhol, "waste land" em inglês. são expressões que não traduzem em sua riqueza a expressão francesa. Porque tanto a noção de "terrain" como a de "vague", contém uma ambiguidade e uma multiplicidade de significados que fazem desta expressão um termo especialmente útil para designar a categoria urbana e arquitetônica com a qual nos aproximamos dos lugares,territórios ou edifícios que participam de uma dupla condição. Por uma parte "vague" no sentido de vacância, vazio, livre de atividade, improdutivo, em muitos casos, obsoleto. Por outra parte "vague" no sentido de impreciso, indefinido, vago, sem limites determinados, sem um horizonte de futuro.

Nossas grande cidades estão povoadas por esses tipos de territórios. Áreas abandonadas pela indústria, ferrovias, portos, áreas abandonadas em consequência da violência, pela suspensão da atividade residencial ou comercial, pela deterioração do construído, espaços residuais nas margens dos rios, lixões, pedreiras, áreas subutilizadas por estarem inacessíveis entre autopistas, nos limites de operações imobiliárias fechadas sobre elas mesmas, e de acesso restrito por razões teóricas de proteção e segurança.

A aproximação convencional da arquitetura e do desenho urbano a estas situações é bem clara. Se busca sempre, através de projetos e investimentos, reintegrar estes espaços ou edifícios no traçado produtivo dos espaços urbanos da cidade eficiente, sincopada, atarefada, eficaz. Entretanto, ante estas operações de renovação, manifestan-se as pessoas sensíveis. Os artistas, vizinhos, cidadãos desencantados com a vida nervosa e incesta da grande cidade, se sentem profundamente contrariados. Aqueles terrain vague resultam ser os melhores lugares de sua identidade, de seu encontro entre o presente e o passado, ao mesmo tempo em que se apresentam como único reduto não contaminado possível para exercer a liberdade individual ou de pequenos grupos.

A arte dos jardins na cidade do século XIX teve que afrontar o desafio de inserir jardins públicos nas grandes cidades capitais. Este processo pode hoje parecer elementar, evidente e óbvio. Mas não o era. Fazia-se necessário encontrar uma forma de introduzir a natureza na cidade de modo que ela mantivesse suficientes rasgos próprios, apesar de encontar-se situada em território contrário. Os grandes parques urbanos de Londres, Paris, Nova York ou Sidney não são jardins domésticos de maior escala, são verdadeiras recriações da memória dos espaços naturais. São, inclusive em muitos casos, espaços naturais preservados no momento do crescimento da cidade que foram percebidos como redutos, como contra-espaços no período da construção da cidade da primeira Revolução Industrial.

Pois bem. Da mesma maneira que a cultura urbana decimonônica desenvolveu os espaços dos parques urbanos como resposta e antídoto à nova cidade industrial, nossa cultura pós-industrial reclama espaços de liberdade, de indefinição e de improdutividade, desta vez não mais ligados à noção mítica da natureza, mas à experiência da memória, da fascinação romântica pelo passado ausente como arma crítica frente ao presente banal e produtivista.

A comparação com o fenômeno dos parques urbanos não pode entretanto, nos enganar com respeito às diferenças. Preservar, gerir, reciclar os terrain vague, os espaços residuais da cidade, não pode ser simplesmente reordená-los para que se integrem novamente na trama eficiente e produtiva da cidade, cancelando os valores que seu vazio e a sua ausência possuiam.

Ao contrário, é este vazio e esta ausência o que deve ser salvo a todo custo, o que deve marcar a diferença entre o federal bulldozer e as aproximações sensíveis a estes lugares de memória e ambiguidade.

Se a nossa proposta de categorias culturais para entender as novas relações entre a arquitetura e as grandes metrópoles atuais começava pela noção de "mutação" como a mais adequada para entender os fenômenos de transformação súbita, a última que propomos, terrain vague, constitui praticamente seu contraponto, o reverso da mesma moeda metropolitana. Somente uma igual atenção aos valores da inovação e aos da memória e da ausência será capaz de manter viva a consciência em uma vida complexa e plural. O papel da arte, escreveu Deleuze, e também o da arte da arquitetura "não é o de produzir objetos para si mesmos, autorreferentes, senão o de se constituir em uma força reveladora da multiplicidade e da contingência."

1- O termo pervivencia em espanhol deriva do verbo pervivir, que tem o sentido de "continuar vivendo apesar do tempo ou das dificuldades". (N.T.)"

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O texto acima transcrito foi originalmente publicado no artigo "Presentes y Futuros: Arquitectura en las ciudades", publicado no catálogo do XIX Congresso da UIA, realizado em Barcelona em 1996. A tradução para o português é de Laís Bronstein, e foi publicada originalmente na revista "Fresta: periódico do curso de Arquitetura e Urbanismo da PUC-Rio", nº 1, maio 2007.
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