
deficiência estrutural



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"Nesse ponto temos que definir a personalidade do arquiteto: o arquiteto é um operário qualificado que conhece o seu ofício não só prática como teórica e historicamente, e tem precisa consciência que a sua himanidade não é fim em si mesma, mas se compõe, além da própria individualidade, dos outros homens e da natureza." Lina Bo Bardi, 1958
Após chegar no Brasil em 1946, seus textos escritos entre até os anos 60 mostram uma Lina inspirada, hipnotisada diante do cenário promissor da arquitetura brasileira. Os textos escolhidos mostram seus pensamentos focados na arquitetura moderna, na teoria da arquitetura, nos próprios grandes arquitetos brasileiros representantes do movimento moderno, e na industriaização e seu impacto no design.
"A idéia inicial de recuperação do dito cuonjunto foi a de "arquitetura pobre", insto é, não no sentido de indigência mas no sentido de artesanal, que exprime comunicação e dignidade máximas através dos menores e humildes meios" Lina Bo Bardi, Sobre o projeto do SESC Pompéia, 1986
Mais pra frente, após mais alguns anos de Brasil, os textos já revelam outra Lina: agora mais centrada em questões éticas relativas o ensino da arquitetura, questões sociais como a problemática da falta habitação popular, ao design, e a arte popular, sempre se empenhando na pesquisa pela essencia da arte popular, pelos costumes e signos que seriam para ela os verdadeiros representantes da cultura brasileira.
Abrasileirada, Lina emprega seus conhecimentos na prática da arquitetura, revelando através de projetos, como o SESC pompéia, o MAM Salvador, o Teatro Gregório de Matos, a reforma da Casa do Benin que a a arquitetura moderna brasileira, poderia (e deveria) ser mais brasileira do que era. Polêmica como sempre, se dizia stalinistra, antifeminista, e em 90 chegou afirmar que o design brasileiro nunca existiu e que design estava acabando. Dizia o que queria, falava o que lhe viesse na cabeça.
Fica evidente que Lina era uma mulher que tinha pensamentos anos-luz à frente de outras mulheres e homens de seu tempo, ou ainda dos tempos atuais. Era preocupada com o progresso coletivo, e não o individual.
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"que centro?"
Passo adiante a indicação do arquiteto Manuel Fiaschi, que me mandou um interessante artigo do arquiteto carioca Flávio Ferreira, que mostra claramente que o problema de trânsito no Rio, asim como em outras metrópoles tem solução. E não é das mais complicadas. Nem das mais caras.
É uma solução que considero merecer ser testada, afinal, teoria e prática não podem andar separadas.
O artigo foi publicado pelo site Opinião e Notícia, e encontra-se nesse link:
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Pareceu-me divertida a idéia de uma contra-engenharia, uma anti-arquitetura, onde se fosse da frente para trás, uma arquitetura, onde o andaime fosse o fim, e o resto, vão parnasianismo de consumo fácil, uma engenharia onde o objeto arquitetural já fosse direto para seu estado último.
Assim, o nome desta reflexão (odeio a palavra "crônica", com que alguns costumam designar meus "textos-ninja") era para ser "instruções para a construção de uma ruína".
A ruína é o maior abandonado do meio dos edifícios. Cabanas, palafitas, vilas, mansões, castelos, palácios, palacetes, apartamentos, kitchenettes, privadas de quintal, quartos de empregada, qualquer caverna habitável tem tido mais atenção que as ruínas.
E, no entanto, a ruína é o sentido de final de tudo, o significado dos quartos de empregada, das privadas de quintal, kitchenettes, apartamentos, palacetes, palácios, castelos, mansões, vilas, palafitas e cabanas.
Foi em Brasília que tive essa intuição.
A primeira vez que estive lá, fui ciceroneado pelo poeta Nicolas Behr, que me mostrou as belezas da arquitetura de Niemeyer, aqueles maravilhosos caixotes de cimento que o tempo, com sua habitual perícia e pontualidade, já está carcomendo e encardindo.
Mas de tudo o que vi lá o que mais me empressionou foi o primeiro andar de um edifício interrompido, um começo de prédio com a ferragem interna aparecendo, saindo de dentro do cimento armado, como as tripas de um aborto ou a primeira quadra de um soneto acabado.
-Uma ruína? Aqui? Neste monumento futurista?
Behr, que ama Brasília até a insentatez, me tirou do pasmo, explicando que realmente era um prédio interrompido, que assim foi deixado para dar o toque humano àquela paisagem sublunar de ficção científica.
Arrebatado pela musa, ali memso desovei no ato um poema de dezoito andares chamado "Claro Calar Sobre uma Cidade sem Ruínas".
Desde então a idéia da construção de ruínas me persegue como uma obsessão.
Dia desses, lembrei qua já tinha tido essa idéia, quando garoto. Mais. Que eu já tinha construído, uma vez, uma ruína. Era num mato perto da minha casa, atrás do internato dos irmãos maristas, onde eu estudava. No meio desse mato, havia um resto de um velho poço, coberto por uma torre de tijolos. Eu gostava de vir ali de tarde e ficar lendo Deuses, Túmulos e Sábios, o livro que mais me marcou na vida. E no meu desvario de arqueólogo aprendiz, eu gostava de fantasiar que aquele resto de poço pertencia a uma civilização desaparecida, e tentava imaginar como aquele povo vivia, que técnicas conhecia, que lingua falava.
Um dia, caí em mim e me rebelei contra aquela ficção. E resolvi construír eu mesmo a minha própria ruína. Fabriquei tijolos de barro no riacho mais próximo, que eu enchi de inscrições ilegíveis, mesmo para o linguista hábil que eu já era aos onze anos. Com os tijolos, fui construíndo dia após dia minha própria torre de Babel, fadada ao fracasso desde o nascimento. Abandonei a construção, quando ela já estava quase na minha altura, pois descobri que aquele povo sacrificava aos seus deuses sanguinários os arquitetos com mais de onze anos.
Durante anos, meu amor pelas ruínas me levou ao ódio pela arquitetura.
Eu queria ser um anarquiteto de desengenharias.
Ainda hoje, quando vejo um belo caixote de vidro e cimento na avenida paulista, ainda me consola pensar:
-Calma, calma, rapaz. Imagine que bela ruína isto vai dar um dia.
Mas eu não sou desses que acreditam em idéias individuais.
Tenho certeza que essa minha obsessão deve estar presente em muita gente, neste país onde os projetos já nascem mortos, que é um projeto irrealizado senão uma ruína novinha em folha?
Proponho, portanto, a introdução de uma nova cadeira em nossas escolas de Engenharia e Arquitetura, a de construção de ruínas.
Só construíndo suas próprias ruínas, lúcida e conscientemente, O Brasil poderá readquirir o prestígio arquitetônico que teve nos tempos de JK, aquela ruína do sonho de um país em desenvolvimento.
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I
1
Quanto tempo
Duram as obras? Tanto quanto
Ainda não estão completadas.
Pois enquanto exigem trabalho
Não entram em decadência.
Convidando ao trabalho
Retribuindo a participação
Sua existência dura tanto quanto
Convidam e retribuem.
As úteis
Requerem gente
As artísticas
Têm lugar para a arte
As sábias
Requerem sabedoria
As duradouras
Estão sempre para ruir
As planejadas com grandeza
São incompletas.
Ainda imperfeitas
Como o muro que espera pela hera
(Ele foi incompleto
Há muito, antes de vir a hera, nu!)
Ainda pouco sólida
Como a máquina que é utilizada
Mas não satisfaz
Mas é promessa de uma melhor
Assim deve ser construída
A obra para durar
Como a máquina cheia de defeitos.
2
Assim também os jogos que inventamos
São incompletos, esperamos;
E os objetos que servem para jogar
O que são eles sem as marcas
De muitos dedos, aqueles lugares aparentemente danificados
Que produzem a nobreza da forma;
E também as palavras cujo sentido
Muitas vezes mudou
Com os que as usaram.
3
Nunca ir adiante sem primeiro
Voltar para checar a direção!
Os que perguntam são aqueles
A quem darás resposta, mas
Os que te ouvirão são aqueles
Que farão as perguntas.
Quem falará?
O que ainda não falou.
Quem entrará?
O que ainda não entrou.
Aqueles cuja posição parece insignificante
Quando se olha para eles
Estes são
Os poderosos de amanhã
Os que necessitam de ti, esses
Deverão ser o poder.
Quem dará duração às obras?
Os que viverão no tempo delas.
Quem escolher como construtores?
Os ainda não nascidos.
Não deves perguntar: como serão eles? Mas sim
Determinar.
II
Se deve ser dito algo que não será compreendido imediatamente
Se for dado um conselho cuja aplicação toma tempo
Se a fraqueza dos homens é temida
A perseverança dos inimigos, as catástrofes que tudo destroem
Então deve-se dar às obras uma longa duração.
III
O desejo de fazer obras de longa duração
Nem sempre deve ser saudado.
Quem se dirige aos não-nascidos
Muitas vezes nada faz pelo nascimento.
Não luta, e no entanto quer a vitória.
Não vê inimigo
A não ser o esquecimento.
Por que deveria todo vento durar eternamente?
Uma boa sentença pode ser lembrada
Enquanto retornar a ocasião
Em que foi boa.
Certas experiências, transmitidas em forma perfeita
Enriquecem a humanidade
Mas a riqueza pode se tornar demasiada
Não só as experiências
Também as lembranças envelhecem.
Por isso o desejo de emprestar duração às obras
Nem sempre deve ser saudado.
Tradução: Paulo Cesar Lima de Souza /
Fonte: Revista ViverCidadesMais poesias de Bertolt Brecht, aqui.
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